Posted on /by larisimon

Relato de Desmame Gentil

Meu relato de desmame gentil (aviso aos navegantes: lá vem textão!)

Temos basicamente 3 tipos de desmame: desmame abrupto (onde se tira o mamá de uma hora pra outra abruptamente), desmame gentil (que é conduzido pela mãe, mas de maneira gradual e com respeito ao tempo de ambos) e desmame natural (onde a criança é quem decide a hora de parar). Sempre falo para as mães que atendo que, à princípio, a decisão de até quando VOCÊ vai amamentar só cabe a VOCÊ, mais ninguém! Com a popularização da importância da amamentação se criou dois polos antagônicos com relação ao desmame: de um lado estão as mães e especialistas que acham que tem que desmamar depois dos seis meses, pois o leite materno não é mais necessário (quando essa indicação não vem antes) e no outro lado ficam as mães e especialistas que só acreditam no desmame natural, como se essa fosse a única saída respeitosa para o bebê. Então falar de desmame acabou virando TABU! Ninguém fala, ninguém comenta! Só é “bonito” falar de amamentação, ponto. Porém, o desmame faz parte do processo e precisa ser desmistificado. Muito se fala no respeito ao tempo do bebê. Mas onde está o respeito com ao tempo da MÃE? Amamentar deveria ser um ato de amor e conexão, não uma obrigação que causa desconforto emocional na mãe… É comum esse desconforto acontecer no início, o que é super normal e tende a passar com a orientação correta. Mas quando a gente sente que chegou a hora, que está muito pesado, desconfortável ou até perturbador amamentar (existem casos graves de perturbação na amamentação), vale mesmo a pena seguir à diante por causa dos benefícios do leite materno? Eu sinto que NÃO! Sou mega defensora do aleitamento materno exclusivo até 6 meses e mantido até dois anos ou mais conforme a disponibilidade de cada dupla mãe-bebê. Mas fico muito chateada com o julgamento de algumas mães e profissionais quando a mulher quer desmamar antes dos dois anos… Cada uma sabe se si! O que nós, profissionais, devemos fazer é apoiar mais e julgar menos! E sabe o que acontece quando a mulher está sofrendo calada de perturbação da amamentação e não encontra apoio pra desmamar gradualmente? A situação acaba tomando uma proporção tão grande que ela acaba sucumbindo a um desmame abrupto, causando dor e sofrimento para o bebê e aumentando a sensação de culpa nela mesma. Por isso precisamos falar mais sobre DESMAME!!! Mas reflexões filosóficas à parte, pra mim, o segredo do sucesso do desmame é VOCÊ ESTAR MUITO SEGURA DA SUA VONTADE, e COMUNICAR ESSA VONTADE COM AMOR PARA CRIANÇA. É importante que ela esteja pronta também e o ideal é que ela tenha mais de dois anos e idade quando o processo estiver se completando… É bacana que seja gradual, tirando primeiro a mamada da noite com muita conversa e explicando sempre o porque, com amor e respeito. Depois dá pra ir tirando aos poucos as mamadas do dia, limitando-as. Em toda a situação que vier um pedido pra mamar, convidar para alguma atividade, alguma brincadeira, oferecer água ou outros líquidos. Não acho bacana substituir por mamadeira, pois está resolvendo um “problema” em substituição de outro bem pior. Além de que, isso não é desmame… Substituir teta por mamadeira não é superar a fase oral, que é a essência do desmame. Apoiar o bebê a superar a necessidade de sugar… Por fim, quando estiver bem estabelecido essa diminuição, dá pra combinar uma data para acabar o mamá ou esperar que a própria criança pare de pedir. Isso depende muito de criança pra criança… Não há prazos definidos, e salvo casos graves de perturbação da amamentação, o desmame abrupto nunca é recomendado… No momento em que decidir parar, é bacana que se pare mesmo, sustentar o choro com muito abraço, beijo, carinho, lembrando as razões de parar e nunca subestimando a dor da criança nem abandonando seu choro. A menos que você sinta que realmente ele não está pronto para o desmame. Isso só você com sua intuição poderá dizer!

Por aqui foi isso que fiz. Quando a Luísa tinha um ano e meio ela vinha pedindo menos vezes o mamá, então senti que poderia tirar a mamada da madrugada e a livre demanda de dia (com flexibilidade quando sentia que ela precisava). Perto de dois anos fui espaçando as mamadas até ficar só de manhã e à noite, sendo que ela já não dormia mamando há algum tempo (o que acho bem legal de ir acostumando quando se quer tirar o mamá da madrugada). Em dezembro, quando ela tinha dois anos e três meses, eu tinha uma viagem em que iria ficar 4 dias fora, então aproveitei pra marcar nossa despedida! Fui conversando com ela que ela já estava grande, que não precisava mais do mamá, que foi muito legal até aqui, mas que estava na hora de parar e que logo logo, como garota grande, ela não iria mais mamar na teta da mamãe. Uma semana antes da viagem reforcei bastante nossas conversas e falei que o mamá estava acabando, que a mamãe ia viajar por alguns dias e quando voltasse não ia mais ter leite na teta da mamãe. E assim foi!

Precisei esgotar um pouco no banho durante a viagem só no primeiro e no segundo dia. Depois já não encheu mais a mama, o que pra mim foi um sinal que realmente meu corpo estava pronto para o desmame. Mas será que a Lulu estaria?! Quando voltei, na primeira noite ela pediu, eu expliquei novamente do nosso combinado, ela chorou, chorou bastante, tentou tirar minha blusa. Eu até pensei em dar e continuar no processo gradual. Mas naquele momento senti no meu coração que era chegada nossa hora. Eu confiei que ela também estava pronta e que tentaria mais alguns dias pelo menos antes de desistir. Era a prova de que meu coração também estava pronto pra parar!!! Eu acolhi o choro e falei que nós duas iríamos encontrar outras maneiras de nos conectarmos que não pela teta. Se você analisar o processo de desmame é exatamente isso: encontrar outras formas de se conectar ao seu filho que não pelo peito, aprender outras maneiras de acalmá-lo, acalentá-lo, mostrar presença e amor… Naquela noite, depois de alguns minutos de choro sentido, abraçadinha a mim ela dormiu! Não acordou de madrugada e nos dias que se seguiram, vez ou outra pedia, mas não chorava. Quando os pedidos vinham, eu conversava tudo de novo, reforcei a paciência e o carinho, pois percebi que ela ficou mais manhosa, mais agarrada à mim, mas aos poucos foi conseguindo superar. Em menos de 15 dias depois que eu voltei de viagem ela não pedia mais, não sofria com isso, nem estava com alteração de comportamento. Essa foi a prova de que ela realmente estava pronta. Se eu sentisse qualquer indício de que ela não estivesse pronta, não teria o menor problema em voltar atrás. Acho isso fundamental de ser explicado. Pois leio muitas recomendações de desmame e desfralde dizendo que uma vez iniciado o processo não podemos retroceder. Acho isso bem questionável, pra não dizer insensato… Como tudo na maternidade, acredito do fundo do coração que nossa melhor bússola é nossa intuição e a observação do comportamento da criança e do nosso próprio comportamento.

Eu fiquei muito feliz e orgulhosa de nós duas! Foram seis meses de aleitamento materno exclusivo e dois anos e três meses de aleitamento materno total! Vencemos todas as barreiras sociais de preconceito, de olhares de censura, de descrédito. Foi muito lindo perceber em nós a conexão profunda nos momentos de mamá… Não foi sempre prazeroso, tiveram momentos em que pensei em desmamar abruptamente, pois tive dois episódios bem desagradáveis de perturbação da amamentação. Mas dei tempo ao tempo e considero nosso processo um total sucesso, basicamente porque NÓS DUAS ESTÁVAMOS PREPARADAS! Não existe fórmula mágica! Não existe técnica que funcione pra todas as mães e bebês! Não existe receita de bolo! O que existe é informação e confiança, em você, no bebê e na vida!

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